Viagem de Passos/MG á Puerto Montt / Chile

Uma Viagem de Sonho (ou um Sonho de Viagem)


Estava ventando forte, e muito frio; mas estávamos suados tentando fazer a moto pegar no tranco com apenas 01 litro de gasolina no tanque, não pegou. Empurramos de volta estrada acima até perto da Mércia e Ivani, que esperavam perto da XT 600 do Luiz. Tiramos mais um litro e ½ de gasolina e colocamos no tanque com certa dificuldade por causa do vento forte. Dei partida e a Ténéré girou o motor com força e disposição novamente. Bem comecemos do começo....

Tudo começou em novembro de 1996, quando regressávamos de Fortaleza (CE), meu irmão Luiz e eu Marcos, de uma viagem de moto ao nordeste, vínhamos tecendo a próxima viagem, tinha que ser grande; então porque não, ir ao Chile?

Foi tudo programado durante 02 longos anos, bolsa especial para a viagem, roupas de couro sob medida, luvas, abrigos de lã, o Luiz trocou a sua CB 450 por uma XT 600/98, revisão nas motos, convencemos as esposas a nos acompanharem nessa aventura, providenciamos a documentação e .... partimos.

No dia 28/12/98 às 06:30 hs, numa manhã fria apesar do verão, iniciamos nossa viagem e conseguimos nesse primeiro dia pernoitar em Itapeva/SP. Todos nós sentimos o esforço da viagem com garupa por longos percursos, mas não desanimamos. 

Partimos no segundo dia debaixo de chuva e dormimos em Concórdia /SC, após 11 hs em transito. Mas em compensação o hotel (Hotel Colônia Verde), serviu excelente comida e a acolhida foi ótima, além de ser um dos melhores e mais baratos hotéis que encontramos durante a viagem. 

No terceiro dia chegamos à Erechim / RS, onde o Luiz fez a revisão de 5000 KM na sua moto e instalei na Ténéré uma roldana da corrente quebrada. 

No quarto dia passamos por São Borja/RS trocamos moeda e entramos na Argentina, apreensivos com os conselhos à nós passados à respeito da Policia Rodoviária Argentina, e por conta disso e da distância, procuramos sair das estradas principais, encurtando caminhos.
Pernoitamos em Paso de Los Libres, numa passagem de ano comemorada no quarto do hotel. 

Seguimos no dia seguinte para Federal, Paraná, até São Francisco, onde tivemos um susto ao pagar por um suco de laranja US$4,00 e um café com leite US$2.25. Saímos cedo, passando em Las Perdices, Rio Cuarto, pernoitando em Villa Mercedes. No dia seguinte troquei o óleo de minha moto em La Paz, onde consertei a rosca do parafuso de sangria do óleo, com uma ferramenta que nunca tinha visto antes, e estava ali à minha disposição, e novamente outro susto, paguei pelo litro de óleo o absurdo de US$8,50, preço praticado em quase toda Argentina. Chegamos em Uspalatta `a tarde, onde pernoitamos, e constatei que o velocímetro de minha moto parou de funcionar, passei então a utilizar o da XT do Luiz. 

Em Uspalatta tomamos o ultimo bom café da manhã, até o retorno ao Brasil. Fomos em direção aos Andes, onde vimos neve, o Aconcágua, o túnel Cristo Redentor, os Caracoles com cabras ao lado da estrada, enfim tudo aquilo que sonhávamos em ver. E na aduana encontramos um paulista com seus filhos, que nos orientou à respeito do câmbio e comportamentos no Chile, pois o sogro dele reside em Santiago. Almoçamos salmão, e experimentamos Piscosur (quase igual a nossa caipirinha), em Portillo. Finalmente chegamos em Santiago, onde encontramos Jorge, um amigo (todos os motociclistas são amigos ) que disse ter seu nome no Guinness Book por ter ido à Rússia com sua Kawazaki 400 custom. Ele nos guiou pela cidade, levando-nos até uma casa de câmbio para trocar moeda e também ao Moto Clube do Chile, nos presenteando com o adesivo do clube, e onde encontramos um argentino que já viajou por todo o Brasil com sua Transalp 600, foi ele quem me deu uma pena de ave encontrada na Patagônia que esta na Ténéré.

Continuamos até San Fernando, pela boa estrada Transamericana, onde mais uma vez, experimentamos a solidariedade para com os viajantes de moto, Alejandro Salas, chileno que morou no sul do Brasil, nos parou na entrada da cidade para nos oferecer apoio e informações. Pernoitamos num hotel bom com um péssimo café da manhã. E só foi perguntarmos onde era a saída da cidade, que o proprietário do hotel se dispôs a nos conduzir em seu próprio carro até a saída da cidade. 

No dia seguinte, passamos por Los Angeles, Temuco, Osorno, Puerto Varas, onde chegamos ao pé do Vulcão Osorno, e chegamos à Puerto Mont no dia 06/01/99, às 17:15 hs. 

No dia 07, depois de pernoitarmos em um quarto barulhento e caro, decidimos regressar, apesar da chuva forte, vento, neblina e um frio de congelar, em direção a Bariloche/Arg., passando por Osorno, Nilque, Puyehue (Chile), até chegar na divisa, no Paso Cardenal Samore, dentro do Parque Nac. Vicente Perez Rosales, local onde o asfalto acabou; além do frio, chuva, neblina, curvas acentuadas e precipícios, enfrentamos também o ripio, que é um cascalho grosso e escorregadio, até próximo de Correntoso, já na Argentina. Na aduana Argentina encontramos 03 curitibanos viajando em direção à Ushuaia/Arg., de moto (01 XTZ 750, 01 DR 650, 01 Ninja 600). Continuamos, passando por Villa La Angostura, uma cidadezinha parecida com Campos do Jordão e Gramado, onde não conseguimos hotel, nos obrigando a seguir viagem até San Carlos de Bariloche, conhecida estação de Esqui na neve, onde pela primeira vez desde que saímos de viagem descansamos por um dia, e aproveitamos para conhecer a cidade, descansar e comprar alguma coisa, apesar dos preços salgados para nós brasileiros. Na chegada em Bariloche, fomos parados pela policia Caminera, assim mesmo para controle de acesso à cidade, pois tanto no Chile, quanto na Argentina e Uruguai, não fomos fiscalizados fora das aduanas. O dia foi muito frio e seco. 

No dia 09 saímos cedo do Hotel CopaHue, e fomos enfrentar a Patagônia Argentina (com uma estrada reta, totalmente deserta, e muito frio), onde a gasolina da Ténéré acabou, e passamos o único apuro da viagem, mas dividimos a gasolina e conseguimos chegar ao próximo posto em Piedra de Aguila, com as duas motos totalmente secas de gasolina. Passamos por Picún Leufú, Neuquen, até Choele Choel onde pernoitamos. As motos estranhamente neste trecho, gastaram cada uma ½ litro de óleo em 640 km rodados. 

Saímos novamente cedo com destino à Buenos Aires. Logo encontramos um japonês, o Takehiro Terada viajando numa DR 350 deste o Canada, pretendendo viajar pelas 03 Américas. Conversamos um pouco, claro, usando a linguagem universal (gestos, portunhol, portugles, japongues,etc). Chegamos até a cidade de Azul, onde não foi fácil encontrar um hotel. Aproveitamos e trocamos o pneu da Ténéré que já estava no osso. Passei a viajar com menos bagagem e pneu novo. 

No dia 11, após as verificações de praxe (pressão pneu, óleo na corrente, abastecimento e nível de óleo motor) saímos, e chegamos em Buenos Aires, onde um policial civil nos levou até o Ferry, onde após algumas negociações, conseguimos um preço razoável para atravessarmos de ferryboat até Colônia no Uruguai. Antes de entrarmos no navio, encontramos 02 paulistas viajando em direção à Bariloche de moto (Cagiva 900), mas estavam procurando um trem de ferro para embarcá-las, acho que os animamos a irem de moto mesmo. No Ferry, encontramos também 03 famílias de mineiros (Uberaba) viajando de carro pela Argentina e Uruguai. Foi uma festa, ainda mais que um deles é aposentado pela Cemig, como o Luiz. Seguimos até Rosário, já no Uruguai, onde trocamos o pneu da XT 600 e pernoitamos. Já nesse trecho ficamos encantados com a quantidade de carros muito antigos em pleno uso e bom estado de conservação, e também com a qualidade das frutas, pelo menos o pêssego (durazno) e ameixa, uma delicia. 

Dia 12 seguimos até Punta del Este, onde pernoitamos, após passar rapidinho por Montevidéu, região muito bonita e com uma quantidade enorme de mansões de veraneio. De lá fomos direto até São Lourenço do Sul, após passar por Pelotas, e ao lado da Lagoa Mirim na Reserva Ecologia Banhado do Taim/RS.

No dia 13, já saímos com chuva do hotel em direção à Caxias do Sul, passando por Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo, Gramado (onde fizemos alguma compra) e deixamos para pernoitar em Caxias, descobrimos então que os hotéis são piores e muito mais caros que em Gramado, viajamos todo o dia enfrentando chuvas. 

No dia seguinte, saímos pela manhã já com muita neblina e chuva, para enfrentarmos as curvas da BR116 nas serras Gaúchas. Chegamos até Ponta Grossa/PR, após passar Vacaria/RS, Lages, Monte Castelo, Mafra/SC. Mais uma vez em Ponta Grossa, fomos brindados com a recepção sempre amigável para quem viaja de moto. O proprietário do posto de gasolina, simplesmente telefonou para todos os bons hotéis de P.Grossa, procurando o melhor preço e o melhor desconto para nós, além de nos presentear com um saboroso café expresso. 

Ultimo dia de viagem, saindo de P.Grossa, passando por Castro/PR, Capão Bonito/SP, Itapetininga, Limeira, Mogi Guaçu, Casa Branca, Passos. Neste trecho, trafegamos pela pior estrada da viagem (Limeira-Mogi), pegamos a pior chuva (Limeira - Mogi), viajamos durante à noite pela primeira vez (S.S.Paraiso - Passos - 50 KM) e percorremos o maior trecho em um único dia (840 km). Foi uma viagem espetacular, onde conhecemos pessoas interessantes, lugares espetaculares, comidas diferentes, tivemos quase o dia inteiro para rezar e agradecer a DEUS a todo instante pela viagem totalmente sem problemas, e pelo que estávamos vendo, ouvindo e sentindo. 

Até a próxima, com a Graça de DEUS.

Luiz / Ivani
Marcos / Mércia

contato: reiner@minasnet.psi.br 

Quadro Técnico

Total de quilômetros rodados : 9642,10 KM
Combustível Gasto Ténéré : 523.67 LTs
Combustível Gasto XT 600 : 
Dias de viagem : 20 dias
Total de dias chateado, emburrado, nervoso, estressado : 0000 dias 

Moto Esporte: parabéns pela conquista de um sonho, só conseguimos realizar sonhos em nossas vidas quando se mechemos e decidimos, só aqueles que lutam para realizar seus sonhos são vencedores, mesmo os que não forem realizados... o importante é ter lutado.... um abraço de toda equipe Moto Esporte ao casal vencedor....

Marcos Branco - ( diretor Moto Esporte )