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História da
Triumph, início modesto
Como um imigrante alemão esperto
transformou uma pequena fábrica de bicicletas em uma
grande empresa com uma produção de 30.000 motocicletas
por ano. Jim Reynolds conta esta odisséia histórica.
A Triumph sempre teve alguma coisa de
especial. Este nome está nos tanques das motos há 100
anos, e durante todo este tempo sempre houve destacadas
personalidades e modelos que elevaram a companhia acima
da multidão.
Em 1900, o nome Triumph designava
bicicletas de pedal, fabricadas em Coventry e famosas
pela qualidade do seu acabamento. O presidente da
companhia era Siegfried Bettmann, um alemão que tinha
migrado para a Inglaterra a fim de fazer fortuna, mas
que jamais imaginou o sucesso que viria a ter.
Bettmann era um homem esperto e
contratou um outro alemão, o engenheiro Mauritz
Schutte, para supervisionar a área de produção.
Schutte se interessava pelas novas motocicletas e,
depois de pensar em fabricar os modelos de outras
companhias sob licença, decidiu que a Triumph deveria
fabricar suas próprias motocicletas.
Os primeiros modelos fabricados em
1902 eram primitivos pelos padrões de hoje, sendo
basicamente estruturas reforçadas de bicicleta com um
motor aparafusado a elas e acionamento através de
correia. Naquele primeiro modelo, a Triumph utilizou o
motor belga Minerva, num layout que se tornaria o padrão
da indústria, com o motor numa posição inferior entre
as rodas, tracionando a roda traseira.
Isto parece óbvio demais? Naquela época,
os fabricantes estavam experimentando as mais diversas
opções, uma delas até colocando o motor de
acionamento atrás da roda traseira. O bom senso
finalmente prevaleceu para todos, mas Mauritz Schutte na
Triumph reconheceu a lógica deste layout já na sua
primeira motocicleta.
Problemas com os motores comprados de
terceiros levaram a companhia a produzir seus próprios
motores, e em 1905 era lançado o seu motor com um
ciclindro e 300 cc. Ele conquistou logo a fama de
confiabilidade, mas seria superado em 1907 por um modelo
de 450 cc e embreagem no cubo traseiro! Antes disso, a
pessoa tinha que correr ao lado da moto e subir na sela
depois de o motor pegar - naqueles dias, era preciso
estar em boa forma física para andar de moto.
Naquele ano, Jack Marshall, um
residente de Coventry e dono do "pub" The
Royal Oak em Whitley (que existe até hoje) usou o novo
modelo nas Corridas TT de Isle of Man, chegando em
segundo lugar na categoria de um cilindro, apesar de não
ter um dispositivo de pedal para ajudar nas subidas mais
íngremes.
Em 1908 o regulamento da competição
foi alterado - o dispositivo de pedal foi proibido, e a
uma velocidade média superior a 40 milhas/hora (64
km/h), em estradas de cascalho e com pouquíssima
freagem, Marshall ganhou a primeira TT com a Triumph.
Foi um trajeto difícil, com uma queda logo no início
depois uma parada para trocar um cano de escapamento
quebrado.
Seu consumo de combustível era
espantoso - gastava 2,4 litros para fazer 100 km!
Naqueles dias pioneiros não havia indicações
("pit signals"), mas um companheiro corria ao
lado do motociclista no trecho comprido de Creq Willies
Hill e gritava para lhe dizer como estava indo.
A vitória de Marshall, ficando o
Capitão Sir R. K. Arbuthnot RN em terceiro lugar com
uma outra Triumph, deu um grande impulso às vendas, e
em 1909 a companhia produziu 3000 motocicletas. Nenhum
outro fabricante britânico obteve um sucesso tão
grande, e o modelo popular de um cilindro foi
desenvolvido para chegar a 500 cc e depois a 550 cc, com
uma caixa de câmbio de três marchas, em 1913.
Aquele foi o ano em que Siegfried
Bettmann foi eleito prefeito da cidade de Coventry e ele
ainda ocupava este cargo em 1914, quando a Inglaterra
entrou em guerra com a Alemanha. Foi uma época em que
alguns patriotas mal orientados atiravam pedras nas
vitrines de lojas com nome alemão; entretanto, lá
estava um homem proveniente de um país inimigo,
prefeito de uma importante cidade industrial e que
fabricava motocicletas para o Exército Britânico. Era
preciso ter uma personalidade muito especial para
conseguir esta façanha!
A primeira Guerra Mundial de 1914-1918
havia começado há poucas semanas quando o telefone
tocou na casa de Bettmann, num domingo de manhã. Era o
Capitão Claude Holbrook do Ministério da Guerra,
perguntando se a Triumph poderia enviar 100 de suas
motocicletas Modelo H de 550 cc e um cilindro para a
França naquela noite.
Bettmann reconheceu uma oportunidade
de ouro e chamou o gerente da fábrica Carles Hathaway,
que convocou todos os operários que conseguiu encontrar
em casa. Naquela noite, 100 motos Triumph foram
embarcadas para as tropas britânicas na França. Caso
você ainda tenha alguma dúvida de que a Triumph sempre
foi especial, este foi um atendimento imbatível.
Durante os cinco anos da guerra, a fábrica
produziu 30.000 unidades do seu modelo simples, sólido
e confiável de um cilindro para as Forças Armadas. A
moto adquiriu tamanha fama que era conhecida como a
"Trusty" (Confiável), pois os mensageiros
sabiam que ela continuaria funcionando apesar da lama,
da poeira e do terreno acidentado, enquanto eles se
esquivavam de balas e bombas.
O Capitão Holbrook continuou em
contato com a fábrica durante toda a guerra, e quando
se desligou do Exército, no cargo de Tenente-Coronel,
em 1919, entrou para a Triumph como Gerente Geral,
depois que Schutte teve um desentendimento com Bettmann
e foi destituído com uma indenização generosa.
A linha de montagem de bicicletas foi
vendida e a Triumph entrou no mercado de automóveis.
O motor do seu primeiro veículo de
quatro rodas foi desenvolvido pela Ricardo Engineering,
mas havia algo de muito mais interessante do que um
simples motor de automóvel proveniente daquele famoso
consultor de engenharia. Por volta de 1921, o velho e
bom motor de válvula lateral já era considerado um
pouco lento, quando foi anunciado o novo modelo R (de
Ricardo).
Suas quatro válvulas superiores e o
pistão de liga, de topo côncavo, formavam uma câmara
de combustão que era quase um hemisfério perfeito; em
termos de dinâmica, o motor tinha uma potência robusta
de 20 cavalos -- ínfima pelos padrões de 2002, mas que
há 80 anos era um verdadeiro "avião".
Na pista de provas de Brooklands, em
Surrey, o veículo fez 100 voltas com velocidades entre
65 e 80 milhas por hora. O imortal Riccy tinha realmente
chegado lá e a fábrica inscreveu no TT uma equipe de
três, bem como uma segunda equipe de "correia e
braçadeira" com três dos velhos e confiáveis
modelos de válvula lateral.
Entretanto, o novo modelo vistoso não
se saiu bem, sendo que George Shemans foi o único a
terminar a corrida, em 16° lugar. Uma das motos mais
antigas chegou em 5° lugar, uma tartaruga em relação
à lebre de Ricardo... George Shemans foi contratado
como motorista e piloto de testes da fábrica e teve
como sucessor na Triumph o seu filho Jack, que trabalhou
com a maioria dos carros de corrida da companhia nas décadas
de 60 e 70.
O modelo Ricardo provou a sua
velocidade com uma série de recordes mundiais em 1922,
incluindo a milha com uma velocidade de quase 84
milhas/hora (134 km/h), e Walter Brandish de Coventry
conquistou com este mesmo modelo um segundo lugar, na
corrida Isle of Man Senior TT.
Ele era um favorito natural na corrida
de 1923, mas teve um acidente num treino que o deixou
com a perna quebrada e o impediu de participar da
corrida. Seu único consolo foi que a curva do acidente
foi batizada com seu nome - Brandish é a curva rápida
para a esquerda após o retão de Creg-ny-Baa.
O fato é que o Riccy nunca realmente
chegou a ser um carro de corrida, pois sua estrutura não
era tão rápida quanto o seu motor, e o entusiasmo
pelas corridas desapareceu na fábrica, quando as vendas
diminuíram com o aumento dos preços causado pela inflação.
Parecia que a bolha de vendas iria rebentar.
Entretanto, esta era uma companhia
habituada a produzir um grande volume de motos. Eles
precisavam manter a linha de produção ocupada e não
tinham medo de enfrentar o desafio e chegar a uma
resposta. O modelo LS de 350 cc, lançado em 1923,
custava 69 libras, e em 1927 o preço havia baixado para
39 libras -- os tempos difíceis tinham chegado e os
fabricantes com pequeno volume de produção
desapareceram à medida que chegavam as contas, e depois
os síndicos de falências.
Na Feira de Motocicletas de Londres em
1924 apareceu a resposta da Triumph, o sensacional
Modelo P de 500 cc, um cilindro e válvula lateral. Não
importa que seu modelo consagrado SD de 550 cc estivesse
com o preço de 83 libras; o Modelo P era uma moto de
500 cc, despojado de todo o supérfluo, e custando
apenas 42,87 libras. Siegfried Bettmann demonstrou sua
coragem como líder ao assinar contratos de componentes
para fabricar 20.000 unidades do novo modelo, obtendo
assim um preço excelente dos fornecedores, que
precisavam urgentemente de trabalho para manter suas fábricas
em funcionamento.
Como de costume, Bettmann acertou em
cheio. Seis meses após o lançamento do Modelo P, a fábrica
atingiu um novo recorde de produção, de 1000 motos em
uma semana -- números que hoje são conservadores, mas
que naquela época eram sensacionais. Naquele fim de
semana houve uma grande festa na quadra de esportes da fábrica,
à qual compareceram 5000 pessoas, entre operários da
Triumph, revendedores e amigos.
Este não era um modelo esporte de
qualidade de topo, mas uma medida de emergência eficaz
que salvou a companhia. Tinha um freio dianteiro copiado
de uma bicicleta de pedal, a extremidade maior era fraca
e as válvulas entravam diretamente no ferro do cano do
cilindro em vez de passar por guias apropriadas. Mas ele
vendia na África do Sul, Austrália e Índia, e um
total de 1000 unidades chegou a ser despachado para o
Japão.
Ao fim de 1925 o lote inicial de
20.000 tinha sido vendido e Bettmann se comprometeu com
uma segunda série de 6.000 motos. Isto manteve a fábrica
ocupada até 1927, mas então o modelo já parecia muito
antiquado, e quando a linha de produtos de 1929 foi
anunciada, o Modelo P era apenas uma lembrança.
Naquela época, a produção era de
30.000 unidades por ano, de longe a maior da indústria.
A Triumph manteve a simplicidade na sua linha -- mesmo o
sucessor do modelo esporte Ricardo de quatro válvulas
era um modelo de duas válvulas sem qualquer sofisticação
-- e usou uma política de preços agressiva (em 1930, o
Modelo CSD de 550 cc tinha o preço de lista de 39,87
libras), na sua comercialização durante os anos difíceis
da depressão e o período de recuperação na década
de 30.
Durante este período, eles ofereceram
a moto Triumph mais barata de todos os tempos, o Modelo
Gloria de 98cc, de duas velocidades e dois tempos,
listado na ocasião ao preço de 16 guinéus,
correspondente a 16,80 libras em dinheiro de hoje.
Em 1932, o projetista Val Page
ingressou na Triumph, tendo saído da fábrica Ariel em
Birmingham. Este homem tranquilo e pensativo foi um dos
verdadeiros gigantes da indústria, com uma carreira que
se estendeu desde a década de 20 até a época em que
criou a revolucionária Ariel Leader de 250 cc em 1958.
Instalado na Triumph, ele continuou a
sua tarefa de produzir uma nova linha e em 1934 suas
motos iam desde um modelo de 148 cc e dois tempos com
acionamento Villiers, até o modelo de cilindros gêmeos
paralelos de 650 cc. Sim, Page projetou a primeira moto
de cilindros paralelos da Triumph, e existiu um modelo
de 650 cc muito antes que o tipo se tornasse a
Motocicleta Britânica Padrão da década de 60.
Juntamente com o modelo de cilindros gêmeos,
equipado com uma antiquada mudança da marcha manual,
havia os modelos despojados e enxutos de um cilindro, de
250, 350 e 500 cc. Mas a nova moto de cilindros gêmeos
é que recebeu a publicidade, e o gerente de vendas
Harry Perrey levou o protótipo e o assento lateral para
a Prova Internacional de Seis Dias, e perdeu apenas
cinco pontos conquistando a cobiçada Medalha de Prata.
Após uma desmontagem e exame, o mesmo
equipamento foi levado para Brooklands, onde uma equipe
de motociclistas percorreu 500 milhas em 500 minutos. A
companhia ganhou o cobiçado Troféu Maudes por esta
demonstração da robustez da nova moto. Mas a dura
realidade é que as vendas eram fracas.
A operação não estava dando bons
resultados para a companhia e enquanto a Divisão de
Motos cortava custos e mantinha a produção durante a
depressão, o pessoal da Divisão de Carros resolveu
entrar no mercado de luxo. Bettmann foi rebaixado e o
Sr. Graham, nomeado pelo banco, assumiu o comando. Mas
ele não foi capaz de resolver os problemas da companhia
e decidiu que a solução seria vender a Divisão de
Motocicletas.
Jack Sangster, que havia adquirido a
antiga companhia de motocicletas Ariel e a havia
recuperado, entrou em cena. Ele adquiriu a Divisão de
Motocicletas da Triumph em janeiro de 1936, nomeou
Siegfried Bettman como presidente e obteve o
financiamento necessário para a recuperação.
A Triumph estava novamente de pé, com
a pessoa certa no comando, uma nova linha de motos para
vender e um alto astral no chão da fábrica. E entrou
uma nova personalidade como projetista chefe e gerente
geral - Edward Turner. O próximo grande salto para
diante estava à vista.
A chegada à Triumph de um jovem e
talentoso projetista chamado Edward Turner mudou os
destinos da companhia, na década de 1930. Cerca de uma
década mais tarde, a Triumph estava ingressando nos
anos 50 como líder mundial em motociclismo.
Edward Turner era o homem que poderia
proporcionar à companhia um novo enfoque e talento,
mesmo se para isso tivesse que desagradar a algumas
pessoas.
Ele começou reduzindo ligeiramente os
salários e aumentando o preço dos modelos menores de
motocicleta, que estavam dando prejuízo. Em seguida,
ele disse ao gerente de vendas de que daí em diante
seria um gerente de área, fazendo visitas a clientes em
vez de ficar no escritório.E Turner reformulou o estilo
dos modelos de um só cilindro, que eram o principal
produto da companhia, dando-lhes uma aparência mais
acentuada. As vendas começaram a deslanchar.
Em julho de 1937, foi anunciada a
contribuição histórica de Edward Turner para o
motociclismo britânico. O modelo Speed Twin paralelo de
500 cilindradas oferecia ao público a potência de dois
cilindros com o peso e ao preço de um cilindro, com a
vantagem de um funcionamento mais macio e melhor aceleração
e flexibilidade do motor.
O som do escapamento também era muito
bom, e foi um sucesso instantâneo; a fábrica de
Coventry trabalhou a todo vapor para atender à demanda.
Em 1938 foi lançada a moto Tiger 100, a versão
esportiva da Speed Twin, com a velocidade maxima
sugerida pelo seu nome (100 milhas/hora).
Turner tinha um toque mágico quanto a
idéias de estilo e layout, mas era uma negação como
especialista em corridas. Dois moços promissores, Ivan
Wickstead e Marius Winslow vieram falar com ele na Feira
Anual de Motocicletas, e pediram que lhes cedesse a nova
Speed Twin para tentar bater o record da volta para
motos de 500 cilindradas em Brooklands. Turner duvidou
da capacidade deles e não lhes deu atenção.
Com esta atitude, ele demonstrou falta
de visão. Brookland era o circuito com curvas reversas
onde o pessoal da velocidade era notícia, quebrande
recordes que os fabricantes felizes então anunciavam ao
público. Acontece que Wickstead e Winslow não
desanimavam facilmente (um traço natural daqueles que
quebram recordes), e compraram a Triumph de um
revendedor.
Cuidadosamente preparada, com o motor
envenenado e as peças reduzidas ao peso mínimo possível,
a moto foi desenvolvida para a grande tentativa. Em
outubro de 1938, Wickstead estabeleceu o novo recorde de
118 milhas/hora para motos de 500cc.
Edward Turner publicou anúncios de página
inteira e convidou os parceiros a virem a Coventry para
discutir seus planos futuros. Entretanto, tudo isto foi
interrompido quando as ambições de Adolf Hitler
incendiaram a Europa. Brooklands nunca mais abriu como
pista de corridas, de modo que Wickstead e a Triumph
mantiveram o recorde de 500cc para sempre.
Vamos tentar avaliar a importância da
Speed Twin naquela época. O modelo de dois cilindros da
Triumph derrubou as vendas dos outros fabricantes, os
quais tiveram que lutar para vender seus modelos
tradicionais de um cilindro.
Norton, a grande companhia de veículos
de corrida, anunciou que não apoiaria oficialmente as
corridas em 1939 e concentraria seus esforços na produção
de motos para mensageiros, para as forças armadas.
“Isto é besteira”, disse o
falecido Freddie Frith, um membro da equipe da Norton
naqueles tempos distantes, quando eu o entrevistei na década
de 80. “Eles não conseguiam vender suas antigas máquinas
de um cilindro diante da competição da Triumph, e
precisavam dos pedidos dos militares para sobreviver.
Eles não podiam se dar ao luxo de competir em
corridas!” Talvez a antipatia de Edward Turner pelas
competições não demonstrasse tanta falta de visão.
Quando a guerra estourou em 1939, a
Triumph desenvolveu uma moto leve de dois cilindros e
350 cilindradas para uso militar, mas a fábrica na
Priory Street foi completamente destruída num ataque aéreo
a Coventry. Num dia era uma fábrica em pleno
funcionamento, e no dia seguinte um esqueleto fumegante.
Foram encontradas instalações provisórias
em Warwick, mas a real importância desta tragédia
aparente foi a concordância do governo em ajudar a
companhia a construir uma fábrica inteiramente nova,
fora da cidade. Foi na aldeia de Meriden, mas as obras só
começaram depois que as objeções do Conselho do
Distrito Rural de Meriden foram vencidas pelo poder de
Whitehall. Em 1942, a nova fábrica estava em operação,
produzindo as motos 3HW de um cilindro e de 350cc para
as forças armadas, contribuindo assim para o esforço
de guerra.
Quando veio a paz, em 1945, a
companhia ofereceu uma versão civil da 3H, a Speed Twin
e a Tiger 100, e um novo modelo, o 3T de dois cilindros
e 350 cilindradas. O modelo de dois cilindros era
equipado com forquilhas telescópicas, uma novidade para
a Triumph, mas que havia sido introduzida pela companhia
Matchless, sediada em Londres, no seu modelo militar, em
1941.
A Matchless criticou a Triumph pelo
fato de copiar o que ela dizia ser sua própria idéia;
Turner respondeu com anúncios de página inteira
dizendo que “nem tudo que reluz é ouro”, e
sugerindo que a versão da Triumph era superior. Na
realidade, as forquilhas telescópicas apareceram pela
primeira vez nas BMWs na década de 30, e foram estas
que a Matchless havia copiado!
As competições na Ilha de Man foram
retomadas em setembro de 1946, com o Grande Prêmio de
Manx. O fazendeiro irlandês Ernie Lyons competiu com
uma Triumph que aparentemente não tinha nada a ver com
a fábrica de Meriden, onde todos os esforços eram
concentrados no desenvolvimento de novos modelos para a
estrada.
Mas Freddie Clarke, um homem com um
longo currículo em competições, tinha colaborado para
o desenvolvimento de um veículo de corrida pelos irmãos
McCandless em Belfast. Tudo isto na surdina e sem
informar o encarregado...
O GP Manx para motos de 500cc foi
disputado com chuva torrencial. Ken Blils, vencedor em
1938, era o favorito absoluto com uma Manx da Norton,
preparada pelo grande Steve Lancefield, mas Ernie Lyons,
quase desconhecido na Inglaterra, foi rápido na pista
molhada, enquanto Blils foi mais cauteloso.
O homem da Triumph ganhou a corrida,
uma vitória famosa, e logo a Triumph estava oferecendo
um veículo de corrida de 500cc, o Grand Prix. Ele tinha
um som de escapamento maravilhoso em escapamentos
abertos. A aderência à pista não era das melhores,
mas ele ganhou algumas corridas importantes,
especialmente o GP Manx de 1946, pilotado por Don
Crossley, da Manx. Mas ele não podia competir com o
Manx bem desenvolvido da Norton e saiu de linha no início
dos anos 50.
As corridas na estrada podem não ter
sido o esporte favorito de Turner, mas ele reconheceu
estas provas como uma boa maneira de demonstrar as
qualidades de uma moto. Na Prova Internacional de Seis
Dias de 1948 (atualmente ISDE), a equipe britânica que
competia pelo Troféu Internacional incluía três motos
Triumph 500, especialmente preparadas e usando os
cilindros de liga leve que eram utilizados no motor
quando ele funcionava como unidade geradora em aviões
durante a guerra.
A equipe Trophy levou para casa o
Grande Prêmio daquilo que é, na realidade, a Olimpíada
do motociclismo. No fim do ano, foi anunciado o modelo
TRS Trophy. Foi mais um sucesso, preferido tanto por
pilotos de teste como por motociclistas de estrada.
Se você alguma vez tiver a
oportunidade de experimentar uma daquelas Trophy 500,
agarre-a com as duas mãos. Um exemplo vai lhe dizer
tudo sobre a atração exercida pela Triumph há 50
anos, com um motor macio e flexível, peso reduzido e
uma facilidade maravilhosa de manejo.
Em velocidades maiores, a moto é um
pouco instável, mas ela não foi projetada para ser um
veículo de corrida. Ela foi desenvolvida para percorrer
terrenos difíceis, em qualquer estrada secundária,
viela ou trilha de carroça que você venha a encontrar.
Atualmente, uma TRS legítima vale um bom dinheiro, e se
você tiver a felicidade de experimentá-la, verá por
quê.
Além de dar uma contribuição
valiosa para ajudar o Trophy no ISDT de 1948, a Triumph
havia inscrito uma equipe de três elementos da fábrica
e levado o prêmio da equipe do fabricante. E ela
repetiu a façanha em 1949, 1950 e 1951. Liderados por
Jim Alves, um homem de Somerset com um toque delicado no
acelerador, eles tiveram um enorme sucesso. Quando a ACU
criou o “Trials Driver’s Star”, um nome antigo e
um pouco estranho para o campeonato britânico de
pilotos de prova, o vencedor no seu primeiro ano foi o
talentoso Sr. Alves.
Em 1949, houve uma outra conquista com
o lançamento do 6T de 650cc. Ele foi desenvolvido para
atender à demanda do mercado americano por maior
capacidade e maior facilidade para percorrer suas
estradas longas e retas. Ele recebeu um nome tirado do
folclore americano - Thunderbird. A poderosa Ford Motor
Company também gostou deste nome quando desenvolveu um
carro esporte, e na realidade obteve a autorização da
Triumph para usá-lo.
O lançamento do Thunderbird foi um
exemplo de como fazer as coisas da maneira certa. Em
setembro, três motos foram conduzidas no circuito de
velocidade de Montihery, ao sul de Paris, percorrendo
500 milhas. Duas delas tiveram uma média superior a 90
milhas/hora e a terceira, prejudicada por uma rachadura
no tanque de combustível, teve a média de 86
milhas/hora para o percurso todo. Depois, todas elas
deram a volta final a mais de 100 milhas por hora - o
som mágico do qual muito se falava, mas que era
raramente atingido numa moto de estrada. Foi uma
demonstração sensacional da velocidade e resistência
da nova moto, e a publicidade foi enorme.
Melhor ainda, não se tratava de
desenvolvimentos especiais que seriam copiados e
colocados à disposição de qualquer pessoa dentro de
alguns meses. Se você ficasse impressionado com a notícia
da nova moto e fosse até o revendedor Triumph da sua
localidade para ver como ela era, lá estava ela no
showroom.
A moto se parecia muito com o Speed
Twin tradicional, com a mesma estrutura, a nacela bem
arrumada que envolvia o farol e um motor que por fora
parecia similar. Seu acabamento era numa cor azul
característica, um pouco berrante para o gosto de
algumas pessoas numa época em que a maioria das motos
eram pretas, mas estas características tornavam a
Thunderbird inconfundível.
A Triumph entrou na década de 50 e em
um período de prosperidade crescente, com uma linha
muito forte de motos de 2 cilindros e 350, 500 e 650
cilindradas, que atendiam à maioria das preferências
para percursos em estradas. A aparência das motos era
realmente ótima. O Tiger 100 do início da década de
50, com seu “uniforme” característico prateado e
preto, é uma das motos mais bonitas de todos os tempos
no mundo inteiro - seu preço era acessível e ela
estava disponível. A fábrica Triumph de Edward Turner
tinha tudo para ser um líder mundial.
http://www.triumph-motorcycle.com.br
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