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Indian Motorcycles -
Um século de percalços
A
primeira fábrica de motos americana, a Indian produziu
diversos modelos de sucesso, enfrentou várias crises e
voltou a ressurgir no mercado. Acredita que a
Harley-Davidson já teve uma forte concorrente no
mercado americano - e que não se tratava de uma marca
nipônica? Pois foi o que aconteceu no início do século
passado, quando a HD iniciou as suas atividades com a
Indian Motorcycle Company.
No início do século, o jovem
imigrante sueco Carl Oscar Hedstrom, engenheiro e
construtor de bicicletas de competição, elaborava um
modelo com o motor DeDion-Buton e um carburador
desenhado por ele próprio. Os bons resultados chamaram
a atenção do empresário George M. Hendee, de
Springfield. Juntos ergueram uma fábrica e passaram a
produzir, em 1902, pequenas motos de um cilindro - pouco
mais que bicicletas - denominadas Indian.
A
combinação dos seus talentos - o de Hendee para os negócios,
o de Hedstrom para a mecânica - foi desde logo
frutuosa: em 1903 surgiam as Indians animadas por dois
cilindros em V, caixa de duas e três velocidades e
suspensão traseira com braço oscilante. A marca não
demorou muito a ter sucesso em competições, vencendo
quase todas as modalidades sobre duas rodas nos Estados
Unidos. Em 1912, faturava os três primeiros lugares na
famosa Tourist Trophy (TT) da Ilha de Man, na
Inglaterra.
No ano seguinte, a Indian surpreendia
o mercado com o lançamento da Hendee Special, a
primeira moto com sistema elétrico moderno e arranque
elétrico. Antes da Primeira Guerra Mundial tornara-se
no maior construtor de motociclos do mundo, com uma
produção anual de cerca de 20 mil unidades. Sempre na
vanguarda, a HD presenteou o mundo com várias
novidades, tais como, o motor V2 Powerplus de 1.000 cc,
lançado em 1916, e um modelo de competição com quatro
válvulas por cilindro, dois anos depois. Entretanto,
com a saída dos fundadores da empresa ainda em 1916,
por desentendimentos com os diretores, seguiram-se
tempos difíceis para a marca.
Problemas
financeiros quase acabaram com a Indian no período
entre as duas guerras, mas grandes motos continuaram a
sair das linhas de produção de Springfield. São desta
época os lendários modelos: Scout, Chief e Sport
Scout, para além da aquisição do equipamento da Ace
Motorcycle Company, em 1927, por forma a terem
capacidade para produzir o motor de quatro cilindros com
1.260 de cilindrada. A Indian Four, que o
utilizava, foi comercializada de 1927 a 1942.
Indian Scout, Sport Scout e Chief -
Modelos lendários
Lançada
em 1919, a Scout era uma criação de Charles
B. Franklin, piloto da equipe vencedora na Ilha de
Man, que foi da Irlanda para a empresa americana. Tendo
por base o motor Powerplus, Franklin desenvolveu
versões de 600, 750, 1.000 e depois 1.200 cc (esta última
em 1924), que se tornaram a base para os V2 das décadas
seguintes. Soichiro Honda usou uma por muitos
anos. A Scout e a sua versão de corrida, a Sport
Scout de 1935, venceram muitas provas nas pistas.
A
primeira Chief chegou ao mundo em 1921, equipada
com o propulsor de 1.000 cc, mais tarde ampliado para
1.200 na Big Chief de 1923. Neste ano, a marca
atingia as 250 mil unidades produzidas e, embora com uma
produção super reduzida durante quase duas décadas, a
Indian resistiu ao crash da Bolsa em 1929 e, 11 anos
depois, lançava os para-lamas envolventes que se
tornariam a sua imagem de marca. Em 1941 a Sport
Scout era descontinuada.

A marca chegou a fornecer motos para
as Forças Armadas de diversos países na Segunda
Guerra: os modelos Scout 500 (um tanto lentas, mas confiáveis),
750 (que eram na verdade, Sport Scouts "sem
potência") e Chief 1.200. Havia inclusive o modelo
841, com embreagem de mão, o oposto do usual nas
Indians. Mas a Harley-Davidson, já com enorme força no
mercado, conseguiu contratos de maior volume e lucro por
unidade, colocando a sua concorrente em sérias
dificuldades.
Indian Motorcycles -
Novos Rumos
Após
a II G.M. a Indian era vendida. O novo administrador,
Ralph Rogers, decidia-se pelo lançamento de modelos de
menor cilindrada: a Arrow, de 250 cc e um cilindro, e a
Warrior, de 440 cc e dois cilindros verticais. No
entanto, modelos que poderiam ter salvo a marca da
crise, tais como uma Indian Four de 880 cc e a idéia de
uma versão civil da 841, eram cancelados.
Apesar do boom do mercado americano após
a Segunda Guerra, a Chief era considerada antiquadra
pela nova administração e saía de produção em 1948.
A nova linha utilizava tecnologia da Brockhouse
inglesa, com motores com válvulas no cabeça e seletor
de caixa no pedal e embreagem no punho - mas a sua
qualidade de construção estava além das expectativas.
Em 1950 as áreas de fabricação e de vendas da Indian
eram separadas e vendidas ao grupo também inglês Associated
Motorcycles Ltd. (AMC), que detinha as marcas AJS,
Matchless, Norton, Royal Enfield e Velocette.
A
produção da Chief era então retomada, sendo o
modelo Blackhawk Chief o mais famoso da marca. A
velhinha Chief ganhava assim um garfo telescópico hidráulico
e um motor de 1.300 cc, mas permanecia com a já
ultrapassada caixa de três velocidades. A sua famosa
concorrente Harley já utilizava o motor knucklehead
de válvulas na cabeça desde 1936 e uma caixa de quatro
velocidades desde o final da década de 30.
Em 1953, a Chief e o seu V2 davam lugar a uma
versão da Royal Enfield de 700 de cilindrada,
calçada com pneus maiores, guidão largo e o logotipo
Indian no tanque de combustível. Embora fosse uma moto
eficiente e confiável (como poucas inglesas), os fãs
da marca americana aguardavam o lançamento de um novo
modelo legítimo, o que não aconteceu.
A
linha Indian consistia nos modelos britânicos Tomahawk
500 e Trailblazer 700, de dois cilindros; e os
modelos Woodsman 500 e Fire Arrow 250, ambas de
um cilindro. Existia também um modelo de três rodas de
350 cc, vendido para polícias e oficinas mecânicas.
O nome Chief regressava ao mercado em 1959, com o
mesmo motor Royal Enfield 700 montado num quadro
maior. Mas no ano seguinte os britânicos decidiam
abandonar a marca, passando as concessionárias Indian a
vender apenas motos AJS e Matchless. Como ainda
restavam modelos da era Enfield em stock, o grupo
publicava anúncios com os logotipos Indian e
Matchless ou misturava motos das marcas inglesas -
tanto Matchless quanto Enfield - na mesma
mensagem publicitária.
Parecia o fim da linha para a pioneira das marcas
americanas, mas a Indian não acabou. Várias tentativas
de ressuscitá-la foram levadas a cabo, em geral por
revendedores ou ex-pilotos dos seus tempos áureos. Uma
dessas tentativas levou à produção de mini-motos em
Taiwan, de 1971 a 1976, com pequenos motores Minarelli,
Morini e Fuji com capacidades que iam dos 50 aos 175
cc. Até mesmo uma chopper com quadro da italiana
Ducati foi anunciada como Indian Indiana, em
1976, mas não passou do primeiro protótipo.
Alguns desses entusiastas foram processados, nos Estados
Unidos e no Canadá, pelo uso de uma marca que não lhes
pertencia. Até mesmo os aborígines da tribo Umpqua,
no estado americano de Oregon, reclamaram direitos sobre
o nome.
De volta para o futuro
Em
1998, quando parecia definitivamente abandonada, a
Indian ressurgiu no mercado. Três empresas, incluindo a
pioneira Indian Motorcycle Company, uniram-se num
negócio de cerca de milhões de verdinhas e lançaram
uma nova Chief, seguida em 2000 pela Scout
e no ano seguinte pela Spirit. Todos estes
modelos produzidos na Califórnia, nunca mais em
Massachusetts.
O motor da Chief é um gigantesco V2 de 1.638 cc,
a maior cilindrada já vista numa moto de fabricante
americano, com caixa de cinco velocidades. A versão básica
pesa 312 kg e a Roadmaster 325 kg, existindo
ainda a Chief de Luxe. Na Scout e na Spirit
é usado um propulsor V2 de 1.442 cc, sendo a roda
dianteira (de 19 polegadas na primeira e 16 polegadas na
outra) uma das diferenças mecânicas mais visíveis.
A
Spirit é, na prática, uma versão menos potente
da Chief e sem os exagerados para-lamas típicos
da marca. Em todos os modelos a transmissão final é
feita por correia dentada, tal como nas Harleys e em
outras grandes custom.
Embora renascida, a marca não agradou aos puristas:
muitos protestam a sua semelhança com a rival Harley,
sendo a arquitetura do motor, a transmissão e o quadro
similares e alguns componentes idênticos, como o garfo
importado da Showa japonesa. Para eles, as
Indians produzidas nas últimas décadas por entusiastas
da marca, embora com o uso ilegal dos direitos da marca,
eram mais legítimas e puras que as atuais.
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