COMPARATIVO: ESPORTIVAS 1000 CC, AS MAIS DESEJADAS
 
A luta pela liderança na categoria mais exclusiva do motociclismo mundial tem conhecido nos últimos anos o claro domínio da Suzuki GSX-R 1000, reforçado agora com a chegada da versão 2003, mas isto não quer dizer que as restantes propostas não sejam interessantes, até porque há alternativas para todos os gostos.

As 1000 esportivas nunca foram tão desejadas e mesmo com uma série de novos modelos no horizonte, há ainda muito por explorar com a atual oferta, até porque temos aqui excelentes exemplos em termos de polivalência e facilidade de utilização.

Com a chegada da categoria MotoGP e a possibilidade de as 1000 de quatro cilindros participarem no mundial de superbike, todas as atenções viraram–se subitamente para esta classe que assim, quase de um momento para o outro, vai passar a ser a estrela de um mercado que promete grande agitação para os próximos meses, com a chegada de várias novas pretendentes ao título de melhor superdesportiva.

Por enquanto, a máquina da Suzuki segue claramente numa posição de destaque e depois de termos tido a oportunidade de testar, juntamente com alguns dos mais experientes jornalistas europeus, todas as propostas existentes no circuito de Almeria, a noção que já tínhamos depois de inúmeros testes de estrada e também em circuito mas individualmente, reforçou–se, colocando a máquina de Hamamatsu no lugar mais alto de um pódio que é composto por tudo o que de melhor está por enquanto à nossa disposição.

Esta bela história da evolução das esportivas teve um forte impulso quando a Honda, no início dos anos ‘90, mostrou ao mundo a primeira versão da CBR 900RR Fireblade, a máquina que viria a revolucionar conceitos ao nível do peso, dimensões e caráter do motor, abrindo um caminho que, mais tarde ou mais cedo, todos os outros construtores acabariam por trilhar.

Depois, em ‘98, a Yamaha foi ainda um pouco mais além com a primeira versão da bombástica R1, uma moto que levou ao extremo alguns dos conceitos introduzidos pela Fireblade, mas com uma interpretação muito própria por parte dos sempre criativos engenheiros da marca dos três diapasões, de modo que perante este dinamismo a Suzuki não tinha outra alternativa senão pegar na fabulosa base que constituía a sua GSX-R 750 e transforma–la na mil que logo no primeiro ano redefiniu os limites da categoria.

Em paralelo, a Kawasaki não perdia a oportunidade de operar melhoria contínuas na sua ZX-9R e com a chegada da Ducati 999 a concorrência vinda de Itália recebia um notável reforço, pois a Aprilia vinha conseguindo excelentes resultados com as diversas versões da RSV Mille, máquina que infelizmente não conseguimos juntar neste comparativo.

MUITA QUALIDADE

Estas máquinas de um litro (não na íntegra, uma vez que tanto a Honda como a Kawasaki ainda não aproveitaram o limite teórico da categoria em termos de capacidade do motor) representam aquilo que de mais avançado os construtores têm para oferecer em matéria de tecnologia, de modo que não estranha a profusão de materiais nobres como o alumínio ou o titânio um pouco por toda a parte, se bem que neste campo a Ducati continue a apostar no seu tradicional quadro tipo treliça construído em aço, por oposição a todas as estruturas tipo dupla trave das concorrentes nipônicas.

Qualquer das tetracilíndricas em confronto denota um rigor construtivo elevado e se bem que a Kawasaki não consegue esconder o peso dos anos em pormenores como o desatualizado painel de instrumentos - o único analógico - não há dúvida que estamos em presença de máquinas muito bem acabadas, capazes de agradarem mesmo ao mais exigente dos motociclistas e onde se nota um grande esforço por parte tanto da Suzuki como da Yamaha, já que estes são os seus modelos porta–estandarte, capazes de ombrearem, senão mesmo superarem, a tradicional qualidade dos produtos Honda, de modo que em alguns aspectos tanto a GSX-R 1000 como a R1 se posicionam de forma referencial, o que também é válido para a estética, se bem que neste caso seja sempre subjetivo fazer avaliações, no entanto, há atualmente um grande consenso em torno das linhas destas duas motos.

A Ducati é um caso à parte, até porque a filosofia de desenho desenvolvida pelo seu criador está longe de agradar a todos, mas pelo menos é uma máquina que pouco a pouco tem vindo a ser assimilada pelos mais acérrimos defensores da linhagem estreada com a 916.

A 999 corta com uma série de conceitos técnicos que fizeram escola na Ducati, como o monobraço na suspensão traseira, estreando por outro lado uma instrumentação totalmente nova, digital e compacta que permitiu centralizar uma série de funções numa máquina que continua contando com a eletrônica para o controle de todas as funções vitais.

É uma moto bem construída e que revela uma evolução profunda face à geração anterior, mas com pormenores construtivos ainda passíveis de melhoria, especialmente se considerarmos que não é propriamente barata.


QUE MOTORES!

Neste campo há logo uma distinção a fazer pois a arquitetura do motor da Ducati não permite qualquer comparação direta com as suas opositoras nipônicas, que recorrem a unidades de quatro cilindros em linha com formatos muito semelhantes, apesar das diferenças de pormenor ao nível da capacidade e alimentação, já que a Kawasaki ainda recorre aos tradicionais carburadores para alimentar a sua ZX-9R, o que na prática, em termos de utilização, não coloca quaisquer problemas, pois a unidade de 899 cc, apesar da sua inferior cilindrada, continua a agradar pela forma quase explosiva como debita potência, fazendo jogo igual em termos de aceleração com a Fireblade ou até com a R1, que possuem consideravelmente mais capacidade de resposta em baixa e média rotação, mas depois têm que contar com uma subida de regime muito rápida, em alta, por parte da máquina verde.

Apenas a Suzuki parece estar num plano um pouco diferente, pois consegue aliar uma boa linearidade e capacidade de resposta desde baixo regime à explosividade em alta, de modo que em termos de aceleração digere todas as adversárias sem dó nem piedade e isso era notório na longa reta do interior do circuito de almeria, onde a GSX-R 1000 fazia, à vontade, cerca de 20 km/h a mais que as suas concorrentes!

De forma resumida, temos então na Kawasaki uma máquina que transmite grandes sensações, com uma transição muito notória para a verdadeira banda de potência, enquanto a Fireblade e a R1 se mostram mais lineares, sempre com potência e capazes de responderem sem hesitação em qualquer, mas também sem mostrarem a gênica das outras nipônicas lá em cima, denotando um caráter típico de motores que não possuem alimentação forçada de ar.

A Suzuki é um autêntico monstro, capaz de nos fazer saltar os olhos das órbitas de cada vez que rodamos o punho direito com decisão, mas este novo modelo está mais fácil de explorar graças à melhorada gestão eletrônica do motor, de modo que acaba por ser mais fácil do que seria esperar em ritmos próximos do limite.

A 999 é um mundo à parte, pois a entrega de potência do motor de dois cilindros em V obriga a reprogramar a forma como pilotamos.

Nesta moto o que interessa é aproveitar a enorme capacidade de passagem em curva, maximizando a velocidade no ângulo e a melhor maneira de fazer isso é deixar o motor relativamente solto em termos de regime e depois aproveitar a boa resposta da unidade com comando desmodrômico em média rotação, não sendo necessário, nem vantajoso, esticar cada mudança até perto do limitador de rotação, como somos levados a fazer numa quatro cilindros.

Sem ser avassaladora, a potência da 999 é suficiente para garantir uma boa aceleração e isso quer dizer que numa zona mais sinuosa uma quatro cilindros terá muita dificuldade em passa–la (vejam os tempos), só ganhando vantagem quando chega a hora de rodar o punho totalmente e aproveitar o espaço aberto à nossa frente.

LEVES E COMPACTAS

A Ducati ganha o premio da mais compacta, pois é tão estreita, graças ao formato do motor, que chega a fazer confusão, mas só para para quem não está habituado, obrigando a pilotar com as pernas muito juntas, se bem que em termos de comprimento até nem seja das mais curtas, pois neste campo tanto a Honda como a Yamaha se revelam mais radicais, mais parecendo motos de média cilindrada...

A Suzuki está mais compacta este ano, com a parte traseira e especialmente o reservatório de combustível mais estreitos, de modo que vamos muito melhor encaixados do que no modelo anterior, sem que no entanto as dimensões tenham entrado num caminho extremista, de modo que continuamos a ter espaço para nos movimentarmos com liberdade na Suzuki, que acaba por ser agora um meio–termo quase ideal, pois é tão pequena quanto uma 600, mas sem se revelar exageradamente minimalista, de modo que até a sua carenagem proporciona uma razoável proteção aerodinâmica, ao contrário do que sucede com a CBR ou com a R1.

A Kawasaki é a mais volumosa, com o reservatório de combustível muito largo que proporcionam uma posição de condução pouco natural em circuito, mas é uma moto confortável e de todas é a que melhor nos permite fazer quilômetros em estrada, revelando também uma proteção aerodinâmica aceitável.

Mas se a Ducati é a mais estreita, já em termos de peso não leva vantagem e aqui temos que tirar o chapéu à Honda pela forma como conseguiu desenvolver uma moto tão maleável e fácil de levar de uma curva para a outra, chegando mesmo a ser desconcertante pela agilidade que permite.

A Honda é mesmo muito ligeira de frente e coloca–la em qualquer curva é um exercício que não requere esforço, enquanto a R1 ganha à sua rival por mostrar uma frente mais certinha, transmitindo mais confiança nas mudanças de direção bruscas ou nos apoios prolongados.

A Kawasaki, devido às suas dimensões, não permite um movimento natural do corpo, mas acaba por não se revelar assim tão pesada de modo que depois de nos habituarmos à largura até que nem é preciso um grande esforço para a fazer mudar de direção, mais, é certo, do que na GSX-R 1000, mas ainda assim capaz de proporcionar momentos muito divertidos em pista, onde apenas a limitada distância ao solo em curva poderá causar alguns problemas nos ângulos mais empenhados, situação que também afeta a Fireblade, enquanto todas as outras, com destaque para a Ducati, permitem inclinações demoníacas sem que qualquer elemento toque no asfalto.

Em termos de suspensões e dando ênfase à capacidade em pista, temos que destacar o excelente aprumo do conjunto montado na GSX-R 1000, com especial referência à forquilha, mas todas as outras mostram um comportamento à altura, sendo que apenas a unidade dianteira da Kawasaki demonstra um pouco mais de limitações quando o ritmo aperta e há necessidade de levar a máquina perto do limite, até porque agora a frenagem da máquina verde é potente e possui consistência, colocando–se em melhor nível do que por exemplo a da R1, enquanto a Fireblade continua a possuir o conjunto mais forte, juntamente como o da Ducati.

A Suzuki estréia as pinças de montagem radial e as vantagens são evidentes não só no tato - muito progressivo e constante - como também na consistência, já que não parece ser afetada pelo aquecimento ou pela fadiga.

VITÓRIA FÁCIL

A Suzuki melhorou a máquina que já era considerada a melhor da sua categoria e conseguiu fazer um produto que não é apenas e de forma indiscutível, o mais eficaz em condução esportiva (os tempos obtidos em Almeria são esclarecedores) como também permite uma utilização equilibrada e até racional em estrada, graças a uma posição de condução não muito radical, à proteção aerodinâmica e ao melhorado controle do motor, que tornou-a  mais domesticável.

Por tudo isto a Suzuki é sem dúvida a grande vencedora deste comparativo e se esta é uma moto que no próximo ano contará com uma concorrência de respeito, parece não ter por enquanto uma adversária que a destitua do primeiro lugar do pódio.

A Yamaha YZF-R1 também foi muito melhorada há dois anos e para além de se apresentar com uma linha lindíssima - para muitos é a moto mais bonita - está agora mais equilibrada e eficaz, sendo um exemplo de eficácia e facilidade de condução, ao passo que o seu motor é de longe o mais forte na entrega de potência em baixa e média rotação, faltando–lhe apenas algum fôlego em alta e uma frenagem melhorada para poder discutir a liderança com a Suzuki.

Depois as coisa ficam mais difíceis, pois tanto a Honda como a Kawasaki possuem qualidades que as deixam numa posição de luta sem tréguas pelo último lugar do pódio.

A Fireblade é muito bem construída e possui um motor igualmente muito forte em baixa e média, sendo também a campeã da maneabilidade, todos aspectos onde a Kawasaki é inferior, mas a ZX-9R é mais confortável, estável e o seu motor tem uma raça fenomenal em alta rotação, o que deixa os amantes da marca com um grande sorriso. Entre as duas poderá ser mais uma questão de gosto pessoal a ditar a escolha.

Finalmente, a Ducati não pode ser opção lógica se considerarmos aspectos como a relação preço/qualidade/potência, pois é a mais cara do lote e não justifica isso com o seu nível construtivo, nem com sua potência pura (aceleração e velocidade máxima), mas ter uma Ducati é possuir uma moto diferente, exclusiva, não só na imagem, mas também na forma de encarar a pilotagem esportiva e isso é importante para muita gente.

Em jeito de conclusão, é importante sublinhar que qualquer destas máquinas é merecedora da vossa atenção. São as motos topo de gama dos principais construtores e representam o melhor que cada um faz, de modo que há aqui motos más, apenas conceitos construtivos e soluções técnicas um pouco diferentes que depois criam resultados finais com algumas diferenças, que poderão ou não agradar a todos.

É caso para dizer ‘que venha Deus e escolha’ e só esperamos que com este nossa humilde contribuição possamos ter contribuído para tornar a sua escolha mais fácil. Divirtam–se!
 

Texto: MÁRIO FIGUEIRAS
Fotos: IMAGEPRESS/JOSÉ FONSECA
Com a Colaboração de FERNANDO P. MARTINS, NUNO MARGAÇA, FERNANDO NETO, MIGUEL PRAIA, SOLO MOTO, TWO WHEELS ONLY, LA MOTO e EL PERIÓDICO

fonte www.motojornal.pt