Não
há hoje motos mais divertidas, fáceis e equilibradas que
estas 4 tempos.
São o futuro da classe e
do próprio conceito ‘4 tempos’, que três anos após
a primeira aposta - a Yamaha YZ-F - entram em força nos
mercados e nas pistas, apostadas em fazer história como a
mais fantástica geração de motos até hoje construída.
Quatro marcas, três
modelos, três completas máquinas de cross tão iguais
entre si que se torna difícil uma escolha final. Só que
há uma que se destaca um pouco mais...
Texto: RUI MARCELO
Fotos: NUNO LARANJEIRA
Mesmo os que não
sejam assíduos praticantes de motocross e prefiram mais vê–los
‘lá dentro’ que estar ‘lá dentro’, facilmente se
percebem a que ponto chegaram as atuais motos de cross,
especialmente as 4 tempos.
Seria impensável há uns
anos atrás sonhar com o que hoje o comum mortal tem à
sua disposição: motos a 4 tempos tão leves como as 2
tempos, mais rotativas, super–confiáveis e com potências
específicas que facilmente chegam ao astronômico 160 cv.
Os números não enganam, e
na prática as coisas ficam provadas. Basta dar uma volta
em qualquer uma das quatro motos aqui em confronto para
tirar conclusões. Muitas conclusões.
Todo o mérito pelo
‘ponta–pé’ de saída para esta nova geração
pertence sem dúvida à Yamaha que há três anos lançou
a YZ 250F, mas agora o domínio da marca azul começa a
ser repartido pelos restantes três japoneses que
responderam à rival japonesa e às demandas do mercado,
sedento por este tipo de moto. E o campo desportivo dá
uma ajuda. As novas regras dos campeonatos de cross e
supercross por todo mundo, incluem as 250 de 4 tempos
entre as 125 cc de dois tempos, com quem mais rivalizam em
termos de potência e limites de peso, e várias foram já
as vezes em que as 4 tempos se impuseram.
Para o comum utilizador a
coisa fica cada vez mais clara. Estas são as motos que já
deviam existir há mais tempo! É que com elas curte–se
muito mais, aproveitando não só o desempenho dos motores
mas também a ligeira ciclística, e traduzindo isso num
enorme gozo de pilotagem.
A isso juntam–se outras
coisas que nem sempre se destacam mas também interessam.
Estas não exigem misturas prévias, gastam menos
gasolina, são mais fáceis de colocar em funcionamento
que muitas outras dois tempos e não exigem o esforço físico
que pedem as dois tempos de superior cilindrada ou as
possantes 4 tempos acima de 400 cc.
Vamos direto à ação e de
forma muito sucinta procurar explicar afinal aquilo em que
cada uma se destaca, deixando desde já clara a idéia que
entre todas as diferenças são praticamente mínimas,
quase mesmo imperceptíveis.
Pessoalmente digo–vos que
neste momento comprava qualquer uma das motos presentes
embora as diferenças de preço, apesar de mínimas, se façam
notar no caso da Kawasaki.
É que não são mais 250
euros que fazem a diferença, mas por que existe esta
diferença quando as motos são 100% iguais? O nivelamento
‘por cima’ de todas as marcas, permitiu que o
resultado dinâmico em todas seja elevado, embora algumas
situações se notem naturais diferenças.
ERGONOMIA/POSIÇÃO
DE CONDUÇÃO
Vantagem Honda
É praticamente igual em todas, com o denominador
agressividade sempre presente.
A Yamaha tem uma posição
que exige mais hábito, dando até a idéia se ser mais
endurista que cross, por culpa do guidão mais elevado. O
assento junto ao tanque é o mais largo de todas, embora
isso não prejudique os movimentos.
A Honda tem a posição
mais plana. Também é larga na frente mas conduz–se
muito em cima do tanque, pois na realidade bem no centro
do quadro.
A vantagem de permitir
ajustar o guidão e pedaleiras dá algum destaque,
tornando-a vencedora num campo onde a Suzuki/Kawasaki também
dão cartas.
Estas são igualmente muito
planas na seção tanque/assento, muito delgadas e
permitem um excelente posicionamento do corpo, embora
tendo o contra de não ser de todo a mais indicada para
condutores muito grandes, pois ficam acanhados no
conjunto.
ZONAS
SINUOSAS
Vantagem Kawasaki/Suzuki
E esse mesmo reduzido peso, as cotas e sobretudo o
funcionamento do motor, levam a que em zonas muitos
sinuosas e técnicas a vantagem penda claramente para as máquinas
gêmeas.
As duas conduzem–se quase
como pequenas 50 cc de todo–o–terreno, perante as
reduzidas dimensões, permitindo mudanças de direção
super–rápidas e francamente sem qualquer esforço físico.
O motor tem aqui um papel
fundamental, aliado às relações de caixa internas e
relação final destes modelos. A resposta em qualquer
gancho é mais cheia e mais rápida que na Honda e Yamaha,
cotando–se sempre com o mínimo freio motor que só
nalgumas ocasiões leva ao calar do motor e sobretudo com
uma caixa curta que quase obriga a circular sem problemas
em terceira ou mesmo quarta marcha.
O motor da Honda sente–se
ligeiramente mais vazio neste campo, mas ainda assim é
melhor que o Yamaha, que apesar de muito bom e sempre
disponível parece que tem um ‘atraso’ na resposta
pronta ao acelerador. Tudo isto traduz–se em qualquer
uma das quatro numa condução que pode ser feita com a
faca nos dentes e sem medo, até porque todas têm uma
fabulosa capacidade de tração e poucas vezes nos
‘sacodem’ como acontece nas dois tempos.
Em termos de ciclística, a
resposta do conjunto Suzuki/Kawasaki é também mais
perfeita. Ambas as motos sentem–se algo mais duras de
forquilha que a Honda e Yamaha, mas o mais importante é
que com elas basta pensar na curta trajetória que se quer
descrever e aí estamos numa surpreendente velocidade.
A Honda parece que quer sair
de frente em muitas situações em que o motor entra em
carga máxima e a pista é muito sinuosa, e embora também
nunca canse, não consegue levar–nos com a precisão
dianteira da Suzuki/Kawasaki neste aspecto onde de novo
salientamos a importância da resposta em baixa dos
motores.
A suspensão dianteira da
Honda funciona bem e mostra ser suave, mas a geometria do
conjunto não é tão incisiva como na
Suzuki/Kawasaki.
Por último a Yamaha que
junta à referida resposta do motor uma geometria menos
agressiva (apesar da distância entre eixos ser a mesma da
Suzuki/Kawasaki, o trail é superior e o ângulo da direção
também) o que se traduz numa moto algo mais lenta nas
mudanças de direção e com a qual temos de aprender mais
para fazer curvas agressivas e com a precisão das três
concorrentes. Não é que a Yamaha seja má nas curvas em
zonas técnicas, só que depois de se rodar com as
concorrentes, as diferenças surgem.
ZONAS RÁPIDAS
Vantagem Honda
Uma vantagem que acontece porque aqui o conjunto funciona
como um todo e a soma dos vários componentes é mais benéfica
à moto ‘vermelha’.
Suspensão dianteira mostra
a sua enorme capacidade de leitura rápida do terreno. Atrás
também o mono–amortecedor é superior a qualquer um dos
outros conjuntos, até mesmo o da Yamaha que melhorou
muito na versão deste ano e está além do mais
progressivo, mais rápido de resposta.
Rodar com a CRF mesmo num
piso muito esburacado resulta ir ligeiramente mais
depressa que nas adversárias, até porque é aqui que o
motor começa a mostrar todo o seu potencial e a caixa de
velocidades justifica a sua função.
A Honda pede que se passem
as mudanças mais cedo porque também esgota mais cedo,
mas isso só acontece até terceira velocidade, pois a
quarta e quinta são suficientemente longas e não levam o
motor a perder ritmo. Funcionando como um todo, a
estabilidade do conjunto é realmente notável, e acima de
tudo a confiança/segurança superior às concorrentes.
Muito perto segue a Yamaha
que também em ritmos mais ‘acelerados’ pode empenhar
o fruto do motor, que ultrapassada a fase inicial menos
brilhante, coloca no chão os empolgantes cavalos que
produz e transmite à ciclística sempre à altura. O
problema é que apesar de em reta e pior piso a Yamaha ser
estável, nas zonas sinuosas mas de velocidade continua a
sentir–se uma menor capacidade de reação e um esforço
ligeiramente acrescido para o piloto que consiga rodar o
mais depressa que se possa.
A caixa tem também o fato
de ser curta inicialmente e mais longa nas duas relações
finais, que ajuda o motor a ganhar velocidade sem também
perder ritmo, embora se sinta uma maior vontade da unidade
Honda neste aspecto.
Por fim a dupla
Suzuki/Kawasaki que mesmo não sendo de todo instáveis ou
imprecisas em curvas de alta, nota–se que são
penalizadas pela extrema leveza e pelas opções de
geometria escolhidas.
A suspensão dianteira
parece ser menos lenta de resposta além da frente entrar
por vezes num ligeiro abanar que não acontece tanto nas
concorrentes. Um fato não compensado de todo pela
traseira, que também se mostrou lenta nesta situação e
originalmente demasiado mole.
Embora o motor seja o mais
rotativo, a caixa é demasiado curta e chega a fazer
impressão ter que se rolar muito em carga máxima para se
ter velocidade.
Por fim referência última
ao fato de qualquer uma não ter muito freio motor fato
que ajuda imenso à estonteante velocidade que se pode
atingir, e sobretudo à facilidade com que se negociam
curvas mais rápidas antecedidas de frenagens mais fortes
onde com outras cilindradas maiores normalmente se deixa
calar o motor.
NOS SALTOS
Vantagem Honda
Esse mesmo freio motor leva a que os mais experientes
consigam saltar sem problemas e sintam que, apesar de
rolarem com uma 4 tempos, as possibilidades ‘no ar’
destas novas máquinas seja muito semelhante das dois
tempos.
Neste aspecto a inércia
criada em qualquer moto existe, embora a Honda funcione de
novo melhor e como um todo, reagindo naturalmente no ar e
respondendo melhor no pós–salto, através do melhor
comportamento das suspensões.
A dupla Suzuki/Kawasaki não
fica muito atrás, embora o tal pós–salto não seja tão
natural como na máquina referida, fruto sobretudo do pior
comportamento da suspensão traseira.
Já a Yamaha, que se revela
uma moto que precisa de maior hábito de uso, volta a
‘pecar’ pela geometria geral, pela pior sensação
global de peso e pelas suspensões que de resposta natural
deixam um pouco a dever, obrigando a trabalhar muito as
afinações de hidráulico e pré–carga de mola.
FREIOS
Ligeira vantagem Honda
Historicamente, seria de esperar que a Honda se destacasse
neste aspecto, e tal aconteceu, só que a diferença não
é tão significativa como no passado entre as motos de
cross de dois tempos. Os freios Honda continuam a mostrar
a estupenda e formidável capacidade de frenagem que
sempre demonstraram, mas a concorrência já chegou a este
nível, o que não é de estranhar, até porque todos
recorrem a unidades da prestigiada Nissin (que foram
sempre os originais Honda) só que a eficácia e equilíbrio
da frenagem da CRF estão ligeiramente acima.
CONCLUSÃO FINAL
Vantagem Honda
Podia esta nossa análise comparativa ter ido mais a
fundo, mas para o comum utilizador deste tipo de motos,
os campos em que nos concentramos são realmente os que
mais importam - até por isso não tivemos presente nenhum
piloto de ponta, antes sim gente ‘normal’ com maior ou
menor experiência em termos esportivos e que traduzem
muito o tipo de utilizador destas motos.
No geral a opinião entre
os presentes dava alguma vantagem à Honda não só por
ter o motor mais potente, mas pela forma como o conjunto
funciona no seu todo.
Contudo fica o aviso da
concorrência Suzuki/Kawasaki, que à primeira fizeram uma
formidável moto de cross e que apenas não brilhando
tanto em alguns pormenores, não deixam de ser uma séria
opção de compra aos interessados.
Por fim a Yamaha que,
continuamos a referir, é excelente a todos os níveis,
mas que perde a posição de líder porque as recentes
adversárias são, naturalmente, ligeiramente melhores.
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